Chegou a casa depois do convívio e estava obviamente cansado. Hoje toda a gente andava estranha, com atitudes esquisitas, daquelas tipos "luas". Talvez fosse do álcool, talvez fosse outra coisa qualquer.
Com pouco que fazer e ainda sem sono, mesmo já sendo 4h23 da manhã, recostou-se na cadeira da secretária do seu quarto e olhou para o computador. Abriu aquela pasta que já abrira milhentas vezes no mesmo gesto e abriu o ficheiro mais uma vez. Começou a ler aquelas palavras que já conhecia de cor.
"Manchas negras, cinzentas, escuras, brilham na calçada. Gemem sob o peso indomável dos passos cansados e tristes de quem caminha perdido sem rumo. A noite levada, que o sol deixou para trás na sua alegria dúbia, escondia o trabalho agora revelado. O amor é assim mesmo uma doença, e a sua loucura é prova disso.
No brilho ignóbil do negro chão de alcatrão destacam-se letras metros a metros, A… M… O… -… T… E…
Na presença de uma companhia que parece não captar os seus sentimentos como alguém que passa mesmo ao lado, no carro com a sua mãe, ali vão elas duas cada uma no caminho do seu destino, um mais recente, outro uma rotina de anos. Ela contorce-se, ressente-se. A angústia dói-lhe nas entranhas como fogo ardente em chama viva. A quilómetros e com ela a aproximar-se ele é capaz de sentir a sua dor lá bem longe. A ela dói-lhe, a ele não menos. “Odeio odiar-te” geme ela na paixão reprimida que tenta controlar como um monstro que lhe corrói as entranhas, uma paixão reprimida pelo ódio, aquele sentimento siamês da paixão que se criou tão forte com tão breves palavras e acontecimentos.
Nunca mais tais lábios se voltaram a tocar ou tais corpos sequer a aproximar-se numa bênção de amigos. Nunca mais as tardes naquele quarto foram preenchidas com as vivas gargalhadas e os ataques de riso que ela não conseguia evitar com as tolices que ele dizia e fazia. Tardes de boa disposição e paixão à mistura.
Cabisbaixo na sua dor e a sentir a dor alheia, caminha calçada fora, lento e pesaroso, num caminhar de pés de chumbo, com a escuridão varrida ainda há pouco como pano de fundo. Deixar-se ia deter sem resistir tal não eram o cansaço e a dor que o percorriam. No momento que se deixa abater pelo desaparecer do último resto de força que lhe segurava as pernas, larga então, despojado quase de vida própria, a lata de tinta em spray com que havia cometido o seu crime. Era o seu último gesto, a sua última gota de coragem e esperança que havia derramado naquele acto de paixão desenfreada levada ao expoente da loucura com uma palavra só.
Na estrada de caminho para a cidade, e, chegando à cidade, nas pontes, paredes, chãos, janelas, muros e até na pura calçada pejada de passados calcanhares famintos de caminho, jaz escrita a tinta branca a palavra “amo-te” repetida até à exaustão.
Ele nada mais fará a não ser deixar correr o tempo sem fome. Ela, chocada com a força da sua paixão que o gesto da paixão dele revelou, chora na casa-de-banho das raparigas, lágrimas voluptuosas que teimam em não revelar o seu términos. Ela quer amar e não pode, não o fará, não agora. Tem até outro alguém especial a seu lado nesta nova fase da sua vida.
Carregado na maca pelos operadores da ambulância que o haviam vindo buscar, deixa-se levar, morto de paixão, de querer ser amado e não poder.
Acordou de forma lenta e custosa. Sentia o efeito da medicação como um peso que o desencorajava a mexer. Não estava muito ciente do que tinha acontecido nas últimas horas, estava um pouco desnorteado mas percebeu que estava num hospital. Olhou pela janela a perceber o tipo de claridade patente no exterior e perscrutando a parede encontrou um relógio de parede que lhe indicava serem horas de almoço. Só queria dormir mas não tinha muito sono. A cabeça pesava-lhe à semelhança do resto do corpo. Observando o movimento e sons do corredor limitou-se a esperar que alguma enfermeira viesse ter consigo. Os dois outros ocupantes do quarto descansavam num aparente sono. A enfermeira, que vigiava os doentes constantemente entrou passada meia-dúzia de minutos. Uma senhora de meia-idade ostentava um sorriso bem-disposto, quase corajoso para um sítio como um hospital:
-Então rapazinho, já acordado? Dormir um dia e meio é obra!
As palavras não lhe fluíam como queria mas a custo lá falou:
-Que se passou comigo? Não me lembro de como vim aqui parar…
-Ui rapazinho, tiveste uma longa noite, gente jovem como tu não devia vir aqui parar da forma que tu vieste. Foi apenas um susto, uns dias de descanso e ficas fino e pronto para outra.
Da forma que ela falava julgou que tinha ali vindo parar em coma alcoólico, mas continuando a conversa e ao que conseguiu perceber, tinha chegado ali com qualquer coisa próxima de um esgotamento nervoso.
-Foi um gesto bonito para quem tem coração jovem, mas aquela tinta por todo o lado vai dar um belo trabalho a limpar.
-Afinal que fiz eu?
-Um gesto de amor, uma pequena loucura. Não deves fazer outra igual na vida. Às vezes por causa de um anjinho bonito, rapazinhos como tu de grande coração quase vão parar ao inferno.
Pelo seu estado não partilhava muito da boa-disposição da enfermeira, e ela não falava de forma muito directa, mas as suas vagas palavras ajudaram-no a começar a formular memórias até se recordar aos poucos da sua aventura pela madrugada fora que o tinha feito chegar ali num estado deplorável.
Ela cuidou dos seus colegas de quarto e saiu. Regressou com o almoço. A mente repentinamente refrescada dele já pedia diálogo:
-Que noite… É para esquecer, não quero pensar nisso.
-Não penses rapazinho, distrai-te mas é um pouco a ver televisão enquanto comes.
E sorrindo sempre naquele sorriso bem-disposto saiu do quarto rumo à continuação do seu trabalho enquanto, como tudo o mais, também a custo ele tentava tragar alguma coisa.
Os médicos tinham pedido para não haver visitas naquele dia. Olhou para o pequeno armário encostado à sua cama. Pegou no telemóvel. Algumas chamadas não atendidas e várias mensagens, umas casuais na ignorância do seu estado, outras a perguntar como estava. Felizmente que os telemóveis também funcionam em silêncio.
Entre as chamadas a maior parte eram de casa. Ganhando coragem embrenhou a árdua tarefa de explicar aos seus pais que estava tudo bem e que saía no dia seguinte do hospital. O pior foi mesmo justificar aquilo que tinha feito. Recusou perguntas e explicou que esse assunto era para ser esquecido e que não precisavam de vir a Coimbra para o ver, tinha sido apenas um susto, já voltava à actividade e ao estudo para os exames em dois ou três dias. Foi a custo que os conseguiu fazer ficar em casa.
Tratou de responder às mensagens, ainda pouca gente sabia do sucedido e tanto melhor assim. Ficou entretido na troca de mensagens durante a tarde. Tinha acabado há escassos minutos de pousar o telemóvel quando uma enfermeira entrou no seu quarto. Esta não lhe era desconhecida e o seu coração logo respondeu ao nervosismo que se apossou dele. Não tinha estado muitas vezes com ela mas já a conhecia bem. Era a mãe da sua ex-namorada Cátia, a dona Hermínia, trabalhava naquele hospital como enfermeira num outro bloco.
Vinha também vestida com um sorriso bem disposto. Um gesto invulgar como o que tinha feito tornou-se um boato assim que ele deu entrada nas urgências. Ela tinha visto parte da sua empreitada a caminho do trabalho. Também chegou aos ouvidos dela pelas suas amigas e quando, na sua curiosidade soube quem era, ficou tomada por uma certa surpresa. Já lá iam alguns meses mas ela percebeu, até pela reacção da sua filha a caminho da cidade, que o “amo-te” que ele tanto escrevera era para a sua ex-namorada. Chegou-lhe aos ouvidos que ele tinha acordado e resolveu ir fazer-lhe uma visita.
Sorriu num sorriso delicado e não forçado e cumprimentou-o:
-Boa tarde! Então homem de Deus, que estás tu aqui a fazer? Não devias estar a estudar? – brincou.
O constrangimento dele deixou-o sem nada que pudesse responder. Ela percebeu e prosseguiu:
-Eu vi aquela rica obra, é muito bonito, mas os funcionários da Câmara é que não devem achar muita piada a limpar aquele trabalho. Pelos vistos tiveste sorte porque é tinta lavável com água e ninguém se dignou a apresentar queixa de um coração apaixonado.
-Pois… - tinha medo de estar para ser repreendido mas ela parecia achar aquilo apenas divertido.
Ela não tinha lembrança de ter conhecido alguém que tivesse feito algo do género, mas segundo sabia, e pelo que parecia, ele estava bem. Ela adora romances e ver algo assim é engraçado, divertido. Já tinha experiência de vida que lhe permitia afirmar que estas coisas não tinham consequências de maior, e se ele estava bem não havia muito para se preocupar.
-Então e já te sentes melhorzinho?
-Acho que sim… Ainda estou a tomar consciência daquilo que fiz.
-Pois, é normal. Mas esquece isso, já passou, e amanhã já deve estar tudo limpo. Daqui a uns dias as ruas da baixa já esqueceram isso e já falam outra vez da crise, da falta de tusto, afinal é disso que se fala quando não se passa nada de interessante por essas ruas e na vida das pessoas. – ria no seu sorriso maternal de quem observa alguém por quem tomou um pequeno carinho nas poucas ocasiões que esteve com ele.
-Esqueço. É passado. Amanhã saio daqui e volto a ser quem era, volto a ser normal.
-Fazes bem. Olha, eu sei que o tempo por aqui custa a passar por isso trouxe-te aqui um livro para ires lendo, para te entreteres até te deixarem sair. É uma prendinha minha, tem aí uma dedicatória, para um amigo engraçado.
-Obrigado, gosto muito de livros. São um tesouro. Amanhã já saio.
-Pois são, e uma bela companhia. Bem, porta-te bem e não dês muito trabalho aqui às enfermeiras que este trabalho às vezes é duro! Tenho que ir que vim aqui à socapa. Adeus!
-Adeus, e obrigado.
-Xau!
E lá ficou ele sozinho nos seus pensamentos.
Só a queria esquecer. Só queria esquecer o que tinha feito, o que se tinha passado. Queria esquecer tudo e enterrar essas coisas na parte do que já lá vai, do que já passou, do que é para ser esquecido. Focou-se em procurar uma distracção para não se debater tanto com a agonia que lhe traziam aqueles pensamentos.
Os seus companheiros de quarto, um senhor idoso e um homem de trintas, pareciam só ter disposição para dormir. Um diálogo estava posto de parte. O telemóvel parecia morto. Decidiu então mirar o seu presente.
O livro era pequeno e de capas duras. Com o seu tipo de ilustração de capa parecia quase um livro infantil. O título, sugestivo, atractivo e nada infantil versava “Tão Veloz Como O Desejo”, de uma autora latina sul-americana. Na parte interior da capa frontal lá estava a dedicatória: “Para um amigo engraçado e perseverante, com um abraço e um beijinho. Hermínia*”.
Se havia presentes a que dava valor eram os livros. Gostava de ler, de escrever, e os livros deixavam-no sonhar num mundo apinhado de pressas. Lia um pouco antes de adormecer, em esperas ou situações mais aborrecidas, ou apenas quando não tinha nada de jeito para fazer. Eram para si tesouros preciosos, duradouros e com muito significado e importância. Eram das poucas coisas também que ainda não perdiam tão facilmente o seu valor em formato digital como acontece de forma corriqueira com os discos, cd’s de música ou dvd’s de filmes. Não admira que fosse seu sonho escrever um livro, ter um seu.
Folheou rapidamente o livro como quem testa a sua qualidade, como quem gosta de ver um livro chegar ao fim em dois segundos, como quem pensa que tipo de história haverá ali dentro escondida, ou simplesmente como quem gosta naturalmente de fazer esse gesto. Reparou então que a última página não estava em branco. Feitas numa escrita apressada mas regular, descobriu mais umas palavras onde reconhecia a caligrafia que autografava a parte interior da capa frontal. Aquela amiga com quem já tinha brincado de sogrinha tinha-lhe deixado ali mais uma mensagem:
“Na vida só tens duas coisas com as quais podes contar com toda a certeza do mundo. Uma é a morte. Aliás, o fim da vida. A outra é amar. Ninguém vive sem amar. Faz o que tiveres que fazer no teu calmo ou louco amor, mas nunca desistas. Nunca deixes de lutar, porque se cortas as asas a ti próprio e deixas de voar na direcção de ser amado, vais morrer sem ter provado o sal da vida. Morres (aliás, deixas a vida) sem sabor. Acorda para a vida, mexe-te, tira o rabo do sofá. Faz as loucuras que tiveres que fazer, fá-lo ao ponto de os outros te invejarem por não serem capazes do mesmo. Se não fores correspondido, se for um amor em vão, faz da perseverança a tua força motriz para tudo, desde que acordes até te deitares. Deixa cá um legado de fãs que te apreciem pela tua coragem. Poderás então ir e deixar o mundo um pouco melhor que o encontraste. Mas só daqui a muitos anos. Até lá tens uma missão a cumprir, viver a vida e amar, aproveitar o que é certo e arriscar no incerto.”
Ficou siderado com aquelas palavras, era quase de quem menos as podia esperar. Demorou alguns minutos até recuperar do seu estado pasmo e regressou ao real chegado dos seus pensamentos. Não concordava que as loucuras fossem muito correctas. Não queria lutar mais pela sua paixão, pelo seu amor. Não queria sequer pensar nela. Estava farto e cansado. Tinha chegado ao seu limite. Estava até ali no hospital por se ter esgotado. Fechou o livro e pousou-o com o cuidado de quem lida com um verdadeiro tesouro. Estava exausto e adormeceu.
Pelas férias fora e durante um semestre ele nada mais quis saber dela. Almeja-se um regresso inesperado e imprevisível com reacções desconhecidas."
E o desafio começou...
...
segunda-feira, 23 de junho de 2008
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